23 novembro, 2010

O bombeiro da cortiça

imageEx-gestor da Corticeira Amorim conta com a banca para fundar, através de fusões, um novo grupo com vendas de €150 milhões. 

Um ano após ter fechado um ciclo de 20 anos no universo Amorim, Jorge Santos ambiciona revolucionar o sector corticeiro. O gestor foi presidente da Amorim Revestimentos e o único elemento exterior à família a ascender à vice-presidência da comissão executiva da Corticeira Amorim SGPS.

A ideia é, em aliança com a banca e com os industriais do sector, fundar um novo grupo, com vendas da ordem dos €150 milhões. Como? Através da fusão de empresas viáveis mas que sofram com um défice de capital e solidez. Jorge Santos transformou-se no bombeiro de serviço para uma indústria onde a banca tem uma exposição de €600 milhões. 

O pontapé de saída foi dado com a tomada pela banca de uma posição de controlo na unidade de rolhas ACT-Abel da Costa Tavares, transformando em capital uma parte da dívida de €77 milhões. BCP (20%), Banco Popular (10%) e Finibanco (8%) lideram o sindicato bancário. Todavia, o maior acionista (45%) é outra corticeira, a FOC, fornecedora da ACT. Arrastada pelas dificuldades dos clientes, a FOC entrou em colapso e está também na mão dos bancos. 

A tarefa imediata de Jorge Santos é recuperar estas duas unidades, com operações complementares, no âmbito de um amplo movimento que acolha várias empresas e beneficie da racionalização de recursos e das sinergias entre elas. A ACT, que já faturou €80 milhões, está agora dimensionada para atingir os €10 milhões, em 2011. 

A vontade da banca 

O grupo Suberus, com três unidades desativadas, é outro dos casos que se encontram dependentes da banca. Outras empresas de referência, como a Juvenal, SA, ou a Álvaro Coelho & Irmãos podem, segundo Jorge Santos, aderir a este movimento reorganizativo, se os seus donos desejarem. 

A ACT era um exemplo que colidia com um dos mandamentos mais repetidos por Américo Amorim: nem um só mercado, nem um só cliente, nem um só produto, nem uma só divisa. A ACT tinha como único fornecedor a FOC e transformava as pranchas de cortiça em rolhas não acabadas que vendia a outras corticeiras. A nova gestão está a comprar a cortiça em Espanha e pretende lidar com os clientes finais. 

Jorge Santos nota que a generalidade das empresas de rolhas replicou a estrutura do grupo Amorim (compram cortiça no mato, transformam e vendem através de redes de distribuição próprias), sem operarem noutros segmentos, como os revestimentos. O grupo Amorim ocupa toda a cadeia de valor, aproveitando os desperdícios para fabricar outros produtos, com aplicações fora da área de negócio das rolhas. 

"O resgate individual de empresas não é a solução. É vital um processo de concentração racional e a constituição de um novo grupo sectorial que conceda eficiência ao longo da cadeia de valor do negócio", refere Jorge Santos. 

Os agentes envolvidos - banca, Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas e à Inovação (IAPMEI) e industriais - mostram-se disponíveis e recetivos ao plano, afirma o ex-Amorim. "Há a convicção de que é preciso racionalizar e evitar a duplicação dos sistemas de compras, preparação da cortiça e redes de distribuição. E a banca aposta na recuperação para evitar mais falências". 

Ainda assim, o gestor receia que empresários que "construíram o seu negócio a partir do zero" só aceitem a fusão se forem pressionados pela banca ou pela situação financeira debilitada em que se encontram. "Nos negócios, há sempre quem prefira morrer sozinho do que viver acompanhado", diz. 

Divergências na Corticeira 

Jorge Santos deixara no fim de 2009 a Amorim Revestimentos. Sob a sua liderança, passara de vendas de €90 milhões (2001) para €140 milhões, beneficiando do alargamento da sua gama de produtos a materiais como a madeira ou o PVC. 

A unidade de revestimentos chocou de frente com a recessão a meio da execução de um plano de expansão para evoluir na gama de produtos, criar um novo modelo tecnológico e reforçar a rede internacional. No primeiro trimestre de 2009, perdeu cerca de mil clientes. Conseguiu recuperar em quantidade de clientes, mas não no volume de compras. Fechou o ano passado com perdas de alguns milhões, invertendo o desempenho de 2008. 

Neste ambiente de crise, as divergências com António Rios Amorim, presidente da Corticeira Amorim SGPS, sobre as medidas a adotar, ditaram a sua saída. Jorge Santos reconhece que a relação com o patriarca do grupo era mais sólida. Com Américo Amorim "o entendimento era correto e a química especial".
UM SECTOR SEM CAPITAL 

Cortiça vale perto de €900 milhões, o grupo Amorim representa metade. Convive com uma dezena de unidades de média dimensão e muitos pequenos operadores, num universo de 250 empresas 

Passividade do líder e a falta de gestão adequada de algumas unidades travam o desenvolvimento do sector
Maioria das empresas sofre de défice de dimensão e viciou-se no uso de capitais alheios. Dívida à banca rondará os €600 milhões 

Descapitalização retirou capacidade vital de compra de matérias-primas. O fator cíclico exige um fundo de maneio reforçado 

Solução passa por operações de fusão que permitam racionalizar 3 produção e evoluir na cadeia de valor, conjugando novos produtos e mercados 

Investimento nos polímeros 

Além do desafio corticeiro, Jorge Santos tem um projeto pessoal de investimento, no sector dos materiais compósitos. A nova unidade combinará polímeros com desperdícios naturais e destina-se aos sectores da construção civil, mobiliário exterior e indústria naval. Terá uma forte vocação exportadora e mercados-alvo como a Itália, Rússia, Estados Unidos e países nórdicos. O projeto envolve a participação de entidades europeias. "Já existem os primeiros protótipos. Estamos na fase de desenho final dos produtos a comercializar", diz Jorge Santos. A nova unidade terá uma área coberta de 5 mil metros quadrados e exige um investimento inicial de €23 milhões. A cinco anos, o valor subirá para €8 milhões, criando 50 postos de trabalho. Nesta fase, avalia a localização Ideal. Nascido em Luanda, Jorge Santos transferiu-se para Portugal em 1978, com 27 anos, depois de ter chegado a diretor-geral da versão angolana da Junta Autónoma de Estradas. Instalou-se em Évora e teve o seu primeiro emprego na extinta Fore, uma empresa do ramo da química alimentar. Antes de ingressar (1990) na 'escola Amorim', evoluiu por diferentes empresas e sectores.

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