Um homem chora abatido na sombra do seu camião, outro homem jaz, ferido, na cama do hospital: ontem, quinta-feira, um pneu soltou-se de um camião e saiu lançado a saltar na A29, em Gaia, atingindo na cara um condutor que parara e saíra duma carrinha.
Não se sabe porque parou ali, naquele alto, Amarílio da Conceição, 49 anos, que conduzia uma carrinha Citroen prateada e acabava de se apear na A29. Estava no km 43, na subida logo depois de S. Félix da Marinha, na auto-estrada que corre para o Porto. Terá tido uma avaria e saiu para a vistoriar.
A auto-estrada é apertada, é uma ex-SCUT, a zona de segurança entre o alcatrão e os rails é só de um metro, não cabe inteiro um carro, e àquela hora, 14.30, o trânsito corre contínuo, cheio de pesados.
Parado na berma, entre o rail e a Citroen, Amarílio só terá tido tempo para ver uma mancha preta veloz crescer para si, grande e desfocada. Foi um só segundo, mas foi o exacto segundo do centro do sinistro: inesperadamente, apanha com um pneu perdido que saiu disparado de um camião acabado de passar. Atingido em cheio, caiu de costas.
Amarílio da Conceição, de Nogueira da Regedoura, Santa Maria da Feira, foi prontamente acudido, diz a GNR, pelos Bombeiros da Aguda e INEM da Feira. Observado e logo transportado para o Centro Hospitalar de Gaia, tem traumatismos na bacia, nas costelas e na cara. "Inspira cuidado, mas o seu estado não é considerado grave. Ficará pelo menos 24 horas em observação", diz fonte hospitalar.
Debaixo daquele tremendo stress, Vítor Fresco, 39 anos, de Mira, condutor do preto camião Scania V8, dez rodas (oito atrás, duas à frente), que seguia com uma carga de batatas para Guimarães, tem a cara de um homem perdido.
Já fez o teste de alcoolemia, de psicotrópicos, já apresentou e espalhou documentos em dia no capot branco do carro da GNR. Abana a cabeça: "Não sei como foi, não sei. Como é possível perder uma roda?". Sacode-se: "Eu vinha a subir, a desfazer a curva e sinto o camião a guinar. Estranhei, travei e parei. Mas quando olho pelo espelho, vejo muito fumo...". E cala-se, os olhos atirados ao chão. "E aí fiquei maluco: torno a olhar e vejo um homem, ai aflição, um homem lá atrás estendido na valeta!".
Agora, já todos saíram, já a GNR foi embora, já passaram três horas, já só há um homem sozinho - "Só quero que ele escape, só quero que ele fique bem. Por favor. Por favor" -, a balbuciar, sem sair dali, vergado, agachado, na sombra do camião, a chorar de incompreensão.
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