10 março, 2011

“Oliva e Feira têm de ser complementares”

image Carlos Martins, estudioso das indústrias criativas e antigo vereador na Feira acredita nos dois projectos mas reforça a importância do planeamento e da estratégia por trás dos mesmos.

O co-coordenador do Estudo Macroeconómico para o Desenvolvimento de um Cluster de Indústrias Criativas na Região Norte defende a complementaridade dos projetos Oliva Creative Factory, em S. João da Madeira, e Caixa das Artes, em Santa Maria da Feira. Carlos Martins, atual diretor de projeto na Fundação Cidade de Guimarães, reforça a importância do planeamento e da integração destes equipamentos numa estratégia de desenvolvimento local.

“É uma grande oportunidade para S. João da Madeira e Santa Maria da Feira mudarem o paradigma económico, cultural e educativo”, disse ao labor. “Agora, será que vão cumprir o seu papel? Não sei”, afirmou. 

Carlos Martins foi vereador da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira entre 1997 e 2004, tendo estado ligado à organização da Viagem Medieval eimage do Festival de Teatro de Rua Imaginarius. Coordenou a animação das cidades no âmbito do Euro 2004, participou na coordenação do Estudo Macroeconómico para o Desenvolvimento de um Cluster de Indústrias Criativas na Região Norte – documento que está na base da agenda para as indústrias criativas - e tem uma empresa de consultoria no Porto, que assistiu as câmaras de S. João e Feira na apresentação destes projetos a financiamento europeu. Actualmente é director de projecto na Fundação Cidade de Guimarães, tendo a seu cargo toda a animação relativa à Capital Europeia da Cultura 2012.

Para Carlos Martins, o sucesso da Oliva Creative Factory e da Caixa das Artes vai depender primeiro das duas cidades, individualmente, e da image percepção que tenham relativamente aos seus equipamentos. “A cidade tem de perceber que aquele projecto é central. O equipamento terá tanto mais sucesso quanto mais a cidade perceber que ali está uma forma diferente de fazer o futuro”, defende.

Martins sublinha que os dois projectos têm de cumprir a sua função localmente e, ao mesmo tempo, contribuir para o cluster da região Norte. “Têm de ser locais, regionais e internacionais. Senão, não têm qualquer hipótese de sobrevivência. Se for mais um espaço municipal, não vale a pena criar”, afirma. É precisamente neste processo de regionalização e internacionalização que os dois equipamentos se complementam, sendo o de S. João mais voltado para o design e tecnologia - e atuando em rede com a Casa das Artes e da Criatividade e com o Centro Empresarial e Tecnológico – e o da Feira para a cultura e arte no espaço público. 

Embora, neste campo, Santa Maria da Feira tenha já um portefólio considerável, o antigo vereador acredita que S. João da Madeira tem também competências próprias adquiridas através da indústria e dos centros tecnológicos, nomeadamente o de calçado que é o mais antigo. 

Carlos Martins reconhece o risco dos dois equipamentos fracassarem se não houver um planeamento fundamentado que os sustente. “Isto (indústrias criativas) não poder uma moda. Não se faz porque é giro. Tem de ser estratégico”, insiste. 

O futuro logo se verá mas, por enquanto, são os custos dos dois equipamentos – 18 milhões de euros – que deixam Carlos Martins um pouco apreensivo. “Acho caríssimo. O investimento é muito grande para o potencial financeiro das cidades”. Martins acredita que poderia fazer-se o mesmo com menos dinheiro e defende até que ambientes potenciadores de criatividade sejam o mais informais possível, como é o caso do Matadero, em Madrid, da Zollverein, em Essen (Alemanha), do Logomo, em Turku (Finlândia) e da Westergasfabriek, em Amesterdão, enumera (ver caixa). “São projectos simples ao nível da arquitectura mas potentíssimos em termos criativos”, afirma. 

Donde vêm as indústrias criativas? 

As indústrias criativas são representadas por uma série de sectores de actividade que, até agora, têm trabalhado fechados sobre si. Setores como a publicidade, a arquitetura, as artes visuais, o artesanato e joalharia, o design, o design de moda, o cinema, vídeo e audiovisual, o software educacional e de entretenimento, a música, as artes performativas, a edição, o software e serviços de informática, e a televisão e rádio têm em comum o facto de dependerem directamente da criatividade individual. 

A agenda regional em torno das indústrias criativas surgiu como resposta a uma série de variantes económicas preocupantes, explica ao labor Carlos Martins. A Comissão de Coordenação e Desenvolvimento da Região Norte (CCDRN) sentiu necessidade de alterar a lógica de financiamento das empresas, deixando de as apoiar individualmente para apoiar os clusters, aglomerações de actividades económicas que se aproximam geograficamente produzindo sinergias entre si. 

Ao mesmo tempo, devido à conjuntura económica, havia a necessidade de encontrar novos sectores de actividade, mais inovadores e com maior capacidade de servir de interface entre o meio académico e científico e o meio empresarial. 

Assim, concluindo que a rede de universidades existentes na região cria uma população com apetência para dinamizar indústrias criativas e que há até um propósito público de revitalizar as cidades da região, o consórcio que elaborou o estudo sobre esta matéria - do qual fazia parte a empresa de Carlos Martins – considerou que o Norte tem condições para se assumir como a principal região criativa do país. 

Para isso era necessário iniciar um plano de valorização do empreendedorismo nas escolas, internacionalizar as empresas existentes e concentrar este tipo de atividades em lugares atrativos e simbólicos. “Até aqui, as empresas queriam estar longe das cidades mas, em funções criativas, o lugar não é tão irrelevante”, explica Carlos Martins. Por isso, a agenda assumiu também uma vertente de regeneração dos espaços. É o caso do parque industrial da Oliva, por exemplo, onde é suposto que a carga simbólica do espaço influencie o potencial criativo dos inquilinos. 

Entretanto, sob sugestão do estudo, criou-se em 2008 a Agência para o Desenvolvimento das Indústrias Criativas (ADDICT) com o objectivo de desenvolver pesquisas sobre o sector e coordená-lo. A agência tem sido presidida pela Fundação de Serralves e dela fazem parte a câmara de S. João da Madeira e a empresa municipal de Santa Maria da Feira Feira Viva entre cerca de 100 associados. 

Exemplos pela Europa fora 

O Matadero, em Madrid, funciona desde 2007 como um centro de criação contemporânea. Até aos anos 80 era o antigo matadouro municipal da cidade, transformado entretanto para acolher atividades criativas. Mais informações em www.mataderomadrid.com

A PAKT Zollverein é um centro de dança, artes performativas, teatro e media instalado numa antiga mina, em Essen. Mais informações em www.pakt-zollverein.de

A Westergasfabriek, em Amesterdão, é um antigo complexo industrial dedicado ao gás transformado num centro de incubação de empresas criativas e palco de eventos performativos. As operações de limpeza do solo demoraram anos. Hoje é rodeado por um grande parque, construído entretanto em redor dos edifícios. Mais informações em www.westergasfabriek.nl e www.project-westergasfabriek.nl, onde é contada toda a história de recuperação do complexo. 

Por: Anabela S. Carvalho

Sem comentários: