Estava escrito nos astros, nos jornais também, mas era fatal como o destino e o destino era a rua. A assembleia de freguesia que indicou a saída, mais não foi do que um ritual fúnebre, que traduzida em música era mesmo um requiem pela morte politica de um presidente de Junta. Não merecia sair assim. Pôs-se a jeito, só se pode queixar de si próprio. A escolha foi sua.
Como sua foi também a escolha da companhia para os seus últimos tempos autárquicos, numa coligação partidária contra natura, tendo em vista os antecedentes políticos quer os pessoais. Falou mais alto o espírito de sobrevivência, -por força de lei, não mais podia concorrer- e faltou o bom senso. O resultado não podia ser outro.
Desta coligação há uma moral a tirar e nisto Esopo deixou-nos várias fábulas com moralidades para todos os gostos. Gosto e bem a calhar desta, a da rã e o lacrau. Relembro-a.
O lacrau que não sabia nadar para atravessar um rio recorreu aos préstimos de uma rã. Esta conhecedora dos seus maus instintos, disse-lhe: “e não vais tu a meio da viagem matar-me?” Ao que o lacrau respondeu: “então ia matar-te e morríamos os dois afogados”. Argumentou bem convencendo-a a fazerem-se à agua. A meio da travessia, estava-lhe na natureza, o lacrau não resistiu e cravou-lhe bem fundo o seu ferrão e lá se foram os dois para as profundezas do rio.
Esta fábula na sua versão canedense, tem um guião diferente e esta começa a diferir quando aqui, o rio é atravessado totalmente. O lacrau já em terra firme, na outra margem, são e salvo, não hesita, é a sua natureza a falar, e injecta o seu veneno letal no dorso da solícita rã. O final só é triste para ela. Ele, o lacrau, está vivo, só não sei se se recomenda. Em breve, o povo também vai dizer de sua justiça.
Mas a assistir ao final da fábula, digo assembleia, muita gente. O centro social estava a abarrotar, quando dei por mim a recordar pelas semelhanças, um episódio já com muitos anos, passado em Espanha na cidade de Málaga. De férias em Torremolinos, desloquei-me aquela cidade para assistir a uma tourada para turista ver. A praça estava lotada mas poucos seriam os verdadeiros aficionados, a começar por mim. Calhei no meio de um grupo numeroso e barulhento de italianos. Fanáticos não da festa brava, mas dos animais, touros em particular. Deliravam quando o touro colhia ou ameaçava faze-lo, pondo em perigo o toureiro. Nessas alturas os olés iam direitinhos para o animal. Bem lá no fundo o que queriam era o matador virar matado.
O que tem a ver este episódio com o que se passou naquela sessão? Muito. Ali, a maioria também estava à espera que o matador Coutinho, fosse colhido e não voltasse à lide.
Não vai voltar e, como na sala eram quase todos italianos, só não se ouviram olés.
PA- (Pós assembleia) - Como, literalmente tinha mais que fazer hoje e na hora da assembleia, e como esta era mais que previsível, escrevi este post, ontem 4ªfeira. Anunciei uma morte, como a do peru, que pensava eu, só ele morria de véspera. A única surpresa foi que “o matador não virou matado”, acabou falecido é verdade, mas, num raro momento de lucidez, que tanto lhe faltou nos últimos tempos, não esperou pela estocada final. Renunciou, nem comparecendo no redondel. Não saiu em ombros, mas não saiu de rastos, como pretendiam.