Gostei particularmente da ligação entre o creme de beleza e o BCP, afinal é tudo uma questão de estética...
Feita a devida ressalva, transcrevo o mesmo:
No mesmo país em que uma cadeia de grandes superfícies processou uma
velhota por supostamente ter roubado um creme de beleza no valor de 3,39 euros,
o maior banco comercial português perdoa dívidas da ordem dos duzentos milhões
de euros aos amigos da administração sem que nada aconteça.
E ainda vêm tranquilizar o mercado porque esses prejuízos estão reflectidos
nas contas do banco, isto é, roubaram aos accionistas e ainda vão ganhar algum
por conta dos impostos que não serão cobrados porque o "roubo" foi convertido em
prejuízo.
No mesmo país onde as grandes superfícies são selvas de câmaras de vídeo e
seguranças, a CNVM e o Banco de Portugal fazem de virgens ofendidas como se as
operações do Millennium fossem uma surpresa, como se nunca tivessemouvido falar
de off-shores ou da Operação Furacão.
É exactamente o mesmo país cujo Procurador-geral recebeu em audiência o
presidente do Millennium que lhe foi dar as boas-vindas, ninguém estranhando
tanta cortesia entre o chefe da investigação criminal e o chefe de um banco sob
suspeita.
Não me admiraria nada que, por este andar, o chefe dos Super Dragões passe
a visitar o Procurador-Geral para lhe cantar as Janeiras e desejar-lhe um bom
Ano Novo.
Mas o problema do Millennium está em vias de resolução para que seja
reposta a paz no mundo da alta finança, o presidente da CGD já se demitiu para
poder transitar para o Millennium.
Isto é, os grandes accionistas do Opus Banco,incluindo os beneficiados da
opus-pouca-vergonha de Jardim Gonçalves, vão ser ressarcidos dos prejuízos. Com
Santos Ferreira (por coincidência cunhado de António Guterres) o banco tem à sua
frente a pessoa ideal pois o novo presidente conhece os cantos à casa do
principal concorrente do Millennium.
E como se isso fosse pouco ainda leva consigo António Vara que, na CGD,
tinha o pelouro do crédito às empresas.
Estão reunidas as condições para o golpe do baú, não admira que pela
primeira vez nos últimos dois anos haja paz entre a maioria dos accionistas,
algo que nem a mão divina da Opus Dei tinha conseguido.
Tudo normal?
Claro, a liderança do Millennium tem todas as condições para consolidar a
liderança no mercado financeiro, agora que está na posse de todas as informações
estratégicas da CGD, não admira que as suas acções tenham reagido em alta. Com
tão boas acções até a Opus Dei ficou contente com a solução.
Inside trading?
Não, nem por isso pois tem a bênção de Sócrates, Constâncio e Carlos
Tavares. Não admira que também tenha o apoio divino com a Opus Dei a orar e o
Cardeal a dar a Bênção.
O que diz Cavaco Silva?
Não tem muito a dizer, os negócios do Millennium são antigos, até se fala
da ida de Catroga, um dos seus íntimos, para a CGD, o mesmo Catroga que era
ministro das Finanças no tempo da privatização do BPA, o mesmo que foi parar ao
Millennium. E por falar em CGD, além do nome de Catroga, um homem de Cavaco,
fala-se de Manuel Pinho, um homem de Sócrates e do BES, o mesmo BES que tem
alguns negócios com o banco público, em tempos até participou numa tentativa de
compra manhosa da GALP, em que esta era adquirida pela Carlyle, por intermédio
de amigos portugueses (entre os quais a Fundação Mário Soares), com dinheiro que
seria da CGD, como Louçã denunciou na AR.
Nesse tempo era primeiro-ministro Durão Barroso, um amigo do BES. O velho
patriarca do BES costumava dizer que este banco "é como as putas, está sempre ao
lado do poder".
Começa a ser difícil distinguir entre putas e poder, já não sei se é o
poder que escolhe as putas ou se são as putas que escolhem o poder.
No meio deste bordel já começa a ser difícil distinguir se os que têm
dinheiro são banqueiros, putas ou os filhos das ditas.
Fez muito bem o tribunal que se entreteve a julgar a velhota acusada de ter
roubado um creme de beleza no valor de 3,99 euros ao Liedl. Para além de dever
saber que estes cremes não dão beleza a ninguém, muito menos a rugas com 76
anos.
Com esta idade já devia ter aprendido que se roubar um papo-seco vai presa,
mas se roubar duzentos milhões de euros passa a fazer parte do jet set, ninguém
lhe olha para as rugas e, se o Procurador-Geral não tiver uma agenda muito
preenchida, ainda pode ir beber um chá ao Palácio dePalmela."
Sem comentários:
Enviar um comentário